quarta-feira, 18 de novembro de 2009

cheiro

Estou numa sala com paredes brancas, bancos de correr modernos, ao centro um caixão e tu lá dentro repousas o que resta do teu corpo, a aparte material.
A familia vai aparecendo, algumas pessoas não conheço, outras não reconheço.Eu converso com as minhas irmãs, já não as vejo à algum tempo, até nos rimos com algumas histórias.
Mas o motivo que nos leva a este encontro é de recolhimento emocional.
Quando fico sózinha naquela sala, olho á distancia para o teu corpo, tens o rosto desfigurado, os lábios de um vermelho nada natural,há algumas flores à tua volta, ouvi dizer que te tinham posto um terço à volta das mãos, mas disseram aos senhores da funeraria para o tirar.Não querias referencias religiosas e não as tiveste podes estar descansado.
Eu não choro, respiro a calma da sala vazia, começo a pensar que estranho é estar numa sala com um corpo morto em decomposição. Inspiro profundamente á procura de um cheiro diferente, o teu cheiro e chego à conclusão que as flores só lá estão para misturarem os cheiros. Algumas emanam um cheiro horrivel, desagradavel, nojento. Mas eu não saio dali, fico a pensar que o teu espirito esta bem longe, a fazer o percurso enumerado por Socrates no livro Fedon de Platão.
Uma vez conversamos sobre a teoria das almas, e foi reconfortante saber que o teu lado espiritual estava bem entregue.
Não importa se concordo ou não, tu achas que é assim e é assim que é.
Insisto no facto de estar a respirar os odores libertados pelo teu corpo, e isso faz-me confusão. Apetece-me sair dali, mas isso implica ter de confraternizar com familiares que olham de lado, ou eu é que os olho de lado e não me apetece nada ser hipocrita.
Eu sei muito bem ser hipocrita, mas neste momento quero sossego.
Vou-me embora com o que resta de ti agarrado às minhas narina, tenho-te entranhado na minha memória e agora sim, tenho vontade de chorar, ou melhor, nem tenho tempo para ter vontade, choro copiosamente.

domingo, 15 de novembro de 2009

A falta que não me fazes

Foi no dia em que lhe atirei terra para cima que percebi que não és nada.

Há realmente quem mereça os meus "sacrifícios", mas tu esgotas-te todos os créditos que te foram oferecidos de bandeja.
Mete-me nojo o tempo em que estive a teu lado, tenho vergonha do que presenciei e tolerei.
E dizia eu que te amava, blargh, que palavra tão mal empregue. Fui prisioneira do teu jogo de sedução e dominação, fiquei paralisada, sem capacidade de acção, fizeste com que os meus órgãos internos definhassem, mirrassem. o sangue deixou de correr em mim...E fiz coisas, fiz coisas das quais me envergonho para o resto da minha vida e para que? Nada, nada se aproveitou, foi tudo falso, desde o primeiro sorriso, aquele quando ainda era-mos adolescentes.
Aceitei tudo, entendi tudo mas, desculpa, não te desculpo.

E um belo dia voltei a sorrir, já não é um sorriso inocente, eu sei e sinto, mas no dia em que lhe atirei terra para cima voltei a ser eu.

Hoje elas caiem

Afinal sempre tinha umas lágrimas guardadas para estes infelizes momentos especiais.

Parece que enquanto sabemos que te podemos ver, a qualquer dia,a qualquer hora, nada perturba a nossa rotina, para quê tinhas de escangalhar tudo? Ah?

Agora estou estupidamente triste, e elas começaram a rolar à mínima lembrança de ti.
Já não me chegava o vazio causado por ela, agora tu tinhas de fazer o mesmo.
Tenho tantas saudades de quem não está cá, às vezes parece que a vejo, o seu sorriso, oh era tão doce a minha menina...

Cá estão elas novamente a deslizarem pelo meu rosto. Que estranho já não me acontecia há tanto tempo que pensei que estava seca. Ou então aprendi a usá-las em quem realmente merece.

Como é possível está dor horrível no estômago, sinto que perdi as minhas muletas, quem me ampara a queda agora, onde estão as palavras sábias?

Ok, lembrei-me, " os fracos de espírito choram desesperados pela matéria que vêem em frente, os elevados ajudam o espírito a seguir o seu caminho."

Obrigada avô, vou ver se não me esqueço!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

só isto


Dei conta que a "felicidade" de certas pessoas não me faz rejubilar!
Egoísmo? Não! Mas saber que eu tinha razão faz-me pensar, e obriga-me a não descurar os meus instintos.
Instintos ou previsibilidade, pois parece que se estivermos atentos conseguimos perceber o que acontece a seguir.
Não falo de prever o futuro, mas a lógica existente em determinadas situações e o seu natural desenrolar.

Até hoje nunca me enganei, as suspeitas que tinha foram sempre confirmadas, mais cedo ou mais tarde.
Às vezes "odeio-me" por não ter confiado em mim.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

um dia


Um dia sento-me ali e fico à espera.

low life

Tenho os olhos em cima das pálpebras, descanso por dentro, continuo alerta, sinto os cheiros que me circundam, disfarço,não estou aqui, ou pelo menos os outros não me vêm.
Respiro o menos possível, dilato os poros o menos possível, mas tenho fome... tenho de mendigar.
As pessoas afastam-se quando me aproximo, nem preciso de ir muito perto, não tenham medo, não faço mal!
Raios, ninguém, nada?
Não é para a droga, é para continuar a bater com o coração na alucinação!
Porra, a fome é a minha droga, vou beber para entorpecer, talvez caia para o lado, rápido, não quero sentir nada, ofereço o meu corpo aos esfomeados como eu...ah ah ah
Acho que não estou bem, mas eu nunca estive bem! Porque respiro? Não vale a pena, não contribuo para o desenvolvimento de nada útil, a não ser de pequenos parasitas como eu que se desenvolvem na minha pele! Ah ah ah!

Ah, ah ah ah ah, ai, ai, afinal fumava um charro, porra, vou-me enrolar até asfixiar, não aguento.
Não aguento!!!!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

poema

Hoje dava-me jeito um poema, daqueles que têm tudo lá dentro, até soluções metafísicas abarcam!
Ou uma citação, do Oscar Wilde ou da vizinha de baixo, é irrelevante!
Às vezes basta uma pequena frase e tudo volta ao eixo...

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

só mais um

Só mais um dia de sol, cheio de calor e falta de amor!
Agora não tenho motivos para estar melancólica, a chuva sempre dava um empurrão, agora o sol desafia os meus olhos, obriga-me a enrrugar à volta deles.
Não estou á espera de nada. o tempo passa e continuo aqui, sem nada. Vomito palavras sem sentido, aleatórias, actividade que gosto de praticar.
Sonho com famílias felizes, portanto minto a mim mesma; imagino-me "normal" enquadrada no padrão de normalidade do século passado, trabalho, tenho filhos e um marido fantástico, temos empregada que vem todas as manhãs e arruma tudo, quando chegamos a casa ao fim da tarde está tudo fantástico e o jantar pronto! A hora de jantar é perfeita, conversamos sobre todos os assuntos do dia, a escola dos miúdos, o trabalho, planeamos fins de semana cheios de belas actividades! Somos tão felizes!
O meu marido é fantástico, super meigo e atrevido quando é preciso! Gosta de me surpreender, sabe que gosto, não suporto monotonia!

Blargh! Que raio de vida, deixo-me de ilusões e de inventar vidas "perfeitas"!

Eu que tenho medo de compromissos, dou-me ao luxo de sonhar com algo que, tenho a certeza, se fosse real não me iria satisfazer de qualquer modo!
Sou assim, nada está bem, pode caminhar para isso, mas arranjo sempre uma pedra no caminho a que chamo insatisfação.
Acho sempre que devia ser melhor, não sei como, mas mehor!
Por isso é que estou no meu canto, sozinha, mas cheia de amigos a quem chamo de família.
Esta é a minha família. Tomo consciência disso agora mesmo, exacto, ah que bom perceber que é possível ser feliz!
Ah como continuo a mentir, mas não se preocupem que é só a mim!

sábado, 24 de outubro de 2009

minutos

Resta-me alguns minutos, usei-os para baralhar os outros que amo e consequêntemente a mim!
Mas a distância permite-me estas brincadeiras, estes amores e paixões, que magoam como se estivessem à porta.
E quando me confrontar com eles? Farei o que sempre faço certamente, fujo, digo que é impossível continuar a alimentar, algo que eu realmente alimentei!
E depois continuo a fazer o mesmo, porque a distância destrói mas protege! E como dói ser cruel...

Desculpo-me porque se não fossem os sentimentos não saberia o que são as emoções!
Mas os outros encontraram o seu caminho enquanto eu me cruzarei no passeio com fururas ilusões.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

tempo

Não penso, deixo-me levar, esta ilusão que algo poderá mudar o dia de amanhã, que eu poderei mudar amanhã!
Os dias passam e por vezes nem respiram, é só mais uma folha de calendário arrancada, imagem que nos persegue, exacta, precisa.
Mas será que eu quero mudar, será que um dia vou arriscar a tomar uma atitude consciente?
Que irritação, a palavra consciente.
Demente, gosto mais!
Deixo-me levar pela chuva, pelo sol, pelas flores que nascem, pelo universo romântico da literatura, pelas paixões e seus turbilhões...
Já tinha idade para...para...sei lá! Quem atribui a idade para?
Gosto de olhar, e guardar cá dentro, as sensações, as tensões sem definições.
Que raio de mundo este, exigente, que me desgasta os ossos, que me dá dores nas pálpebras quando o que quero é ir ali e voltar já, sem consequência nem desgosto!
Tenho medo, por isso avanço, e o que se me aparece nem sempre é mais claro, que angústia não saber o que vem aí...
Fico por aqui, não dói!

o canto

Finalmente um canto há muito desejado, onde as palavras podem ganhar diferentes formas.
Por vezes dançar, saltar, vomitar, ou simplesmente cuspir. As palavras têm vida...