Estou numa sala com paredes brancas, bancos de correr modernos, ao centro um caixão e tu lá dentro repousas o que resta do teu corpo, a aparte material.
A familia vai aparecendo, algumas pessoas não conheço, outras não reconheço.Eu converso com as minhas irmãs, já não as vejo à algum tempo, até nos rimos com algumas histórias.
Mas o motivo que nos leva a este encontro é de recolhimento emocional.
Quando fico sózinha naquela sala, olho á distancia para o teu corpo, tens o rosto desfigurado, os lábios de um vermelho nada natural,há algumas flores à tua volta, ouvi dizer que te tinham posto um terço à volta das mãos, mas disseram aos senhores da funeraria para o tirar.Não querias referencias religiosas e não as tiveste podes estar descansado.
Eu não choro, respiro a calma da sala vazia, começo a pensar que estranho é estar numa sala com um corpo morto em decomposição. Inspiro profundamente á procura de um cheiro diferente, o teu cheiro e chego à conclusão que as flores só lá estão para misturarem os cheiros. Algumas emanam um cheiro horrivel, desagradavel, nojento. Mas eu não saio dali, fico a pensar que o teu espirito esta bem longe, a fazer o percurso enumerado por Socrates no livro Fedon de Platão.
Uma vez conversamos sobre a teoria das almas, e foi reconfortante saber que o teu lado espiritual estava bem entregue.
Não importa se concordo ou não, tu achas que é assim e é assim que é.
Insisto no facto de estar a respirar os odores libertados pelo teu corpo, e isso faz-me confusão. Apetece-me sair dali, mas isso implica ter de confraternizar com familiares que olham de lado, ou eu é que os olho de lado e não me apetece nada ser hipocrita.
Eu sei muito bem ser hipocrita, mas neste momento quero sossego.
Vou-me embora com o que resta de ti agarrado às minhas narina, tenho-te entranhado na minha memória e agora sim, tenho vontade de chorar, ou melhor, nem tenho tempo para ter vontade, choro copiosamente.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
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Oh minha Belinha...Lamento tanto tanto, quem me dera estar aí para te poder abraçar como aprendemos a abraçar-nos, minha mais bela princesinha ***
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